Sumário
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Salvando leitura…
O argumento original correlacionava posição relativa e momento total

Medir aqui, prever longe

Realidade, completude e uma provocação de 1935

O exemplo de 1935 não usava spins. EPR considerou duas partículas num estado ideal em que a diferença de posições e a soma dos momentos eram perfeitamente definidas. Se x₁−x₂ tinha valor fixo, medir x₁ permitia inferir x₂. Se p₁+p₂ era fixo, medir p₁ permitia inferir p₂.

As grandezas conjuntas x₁−x₂ e p₁+p₂ podiam ser simultaneamente definidas porque seus comutadores se cancelavam: a contribuição da primeira partícula vinha com sinal oposto à da segunda. Já x₂ e p₂, pertencentes à mesma partícula distante, continuavam sendo observáveis incompatíveis.

Lia precisava escolher qual aparelho instalar na primeira caixa. Um arranjo media posição; outro, momento. EPR não propôs medir ambos simultaneamente na mesma partícula. A escolha alternativa permitia, em execuções distintas, prever com certeza uma ou outra quantidade do parceiro que já estava longe.

Se a escolha em A não alterasse a realidade física de B, B não poderia ganhar posição real apenas quando Lia montasse a régua, nem momento real apenas quando montasse o espectrômetro. Pelo critério de EPR, ambas as quantidades pareciam qualificar-se como elementos de realidade do sistema distante.

O estado perfeito exigia idealizações severas. Correlações exatas em posição e momento estendem-se infinitamente e não formam um pacote normalizável comum. Estados físicos têm larguras finitas; experimentos posteriores usam correlações aproximadas e critérios quantitativos. A idealização servia para tornar a lógica nítida, como planos sem atrito na mecânica clássica.

Tomás marcou o limite da analogia. Dizer que a soma e a diferença estavam travadas lembrava duas engrenagens, mas engrenagens possuem posições e velocidades clássicas simultâneas. O estado EPR tinha amplitudes conjuntas, e a inferência sobre cada parte dependia da base de medida escolhida no parceiro.

As duas previsões chegaram à caixa distante sem carregar uma mensagem selecionada. Lia não controlava o resultado obtido aqui e só podia verificar a correlação reunindo os cadernos depois. O argumento pressionava a completude da teoria; não entregava um telégrafo mais rápido que a luz.

Fontes desta página

  1. Albert Einstein, Boris Podolsky e Nathan Rosen (1935). Can Quantum-Mechanical Description of Physical Reality Be Considered Complete?.Physical Review, 47, 777–780. Formula o critério de realidade e usa correlações entre sistemas separados para argumentar que a função de onda não constitui uma descrição completa da realidade física.
  2. Erwin Schrödinger (1935). Discussion of Probability Relations between Separated Systems.Proceedings of the Cambridge Philosophical Society, 31, 555–563. Analisa famílias de observáveis correlacionadas em sistemas separados e desenvolve matematicamente as relações de probabilidade evidenciadas pelo argumento EPR.
  3. Niels Bohr (1935). Can Quantum-Mechanical Description of Physical Reality be Considered Complete?.Physical Review, 48, 696–702. Responde ao argumento EPR apontando ambiguidade no critério de ausência de perturbação e defende a completude da descrição quântica pela complementaridade.