Sumário
152 / 216
Salvando leitura…
Schrödinger transformou o paradoxo em estudo dos estados separados

O nome da costura

Realidade, completude e uma provocação de 1935

No mesmo ano, Erwin Schrödinger publicou análises da situação quântica e introduziu a palavra alemã Verschränkung, traduzida como emaranhamento. O termo não decorava um mistério; nomeava a impossibilidade de atribuir estados puros independentes às partes depois que suas descrições se combinaram.

Em seu artigo de Cambridge sobre relações de probabilidade entre sistemas separados, Schrödinger examinou famílias de observáveis correlacionadas. Certas grandezas de uma parte podiam ter parceiros na outra cujos valores se determinavam mutuamente, exatamente o tipo de estrutura explorado por EPR.

Lia abriu um leque de bases. O mesmo estado composto podia ser expandido em pares correlacionados diferentes. Medir uma base na primeira parte selecionava, para cada resultado, um conjunto condicionado de estados da segunda. Outro programa de medida produzia outra decomposição, sem alterar a mistura local quando os resultados eram ignorados.

Esse controle remoto das decomposições viria a ser chamado steering, ou direcionamento quântico. O nome podia sugerir pilotagem do resultado distante, mas seu limite era claro: Lia escolhia o conjunto de estados condicionais, não qual membro aleatório apareceria. Sem o rótulo enviado pelo primeiro laboratório, o segundo não via mudança.

Schrödinger mostrou que a costura não era um detalhe raro. Ela surgia da própria regra de composição por produto tensorial e da evolução de sistemas que interagiram. Conhecer perfeitamente o todo podia deixar cada parte apenas com uma mistura, invertendo a expectativa clássica de que conhecer o conjunto significa conhecer cada peça.

Tomás comparou o estado a um texto escrito em duas páginas transparentes: certas frases só aparecem sobrepondo-as. A analogia terminava porque folhas carregam marcas locais prontas, enquanto decomposições quânticas dependem de bases incompatíveis e não formam um único manuscrito clássico subjacente.

A costura recebeu um nome antes de receber um teste decisivo. Emaranhamento organizava a crítica de EPR, a defesa contextual de Bohr e as novas relações estudadas por Schrödinger. Vinte e nove anos depois, Bell perguntaria quais correlações qualquer manuscrito local poderia produzir.

Fontes desta página

  1. Erwin Schrödinger (1935). Discussion of Probability Relations between Separated Systems.Proceedings of the Cambridge Philosophical Society, 31, 555–563. Analisa famílias de observáveis correlacionadas em sistemas separados e desenvolve matematicamente as relações de probabilidade evidenciadas pelo argumento EPR.
  2. Erwin Schrödinger (1936). Probability Relations between Separated Systems.Proceedings of the Cambridge Philosophical Society, 32, 446–452. Mostra como diferentes programas de medição em uma parte realizam decomposições distintas da mesma mistura quântica associada à outra parte.
  3. Erwin Schrödinger (1935). Die gegenwärtige Situation in der Quantenmechanik, partes I–III.Naturwissenschaften, 23, 807–812, 823–828 e 844–849. Ensaio publicado em três partes que discute emaranhamento, completude e o experimento mental do gato para expor a amplificação macroscópica.