A fórmula estava pronta, mas um teorema não fecha sozinho uma questão sobre a natureza. Fontes precisavam produzir pares emaranhados, analisadores escolher bases, detectores registrar eventos e relógios identificar quais cliques pertenciam à mesma emissão.
Em 1969, Clauser, Horne, Shimony e Holt propuseram uma extensão de experimentos com correlação de polarização para testar teorias locais. A desigualdade CHSH tolerava imperfeições melhor que o cenário ideal e fornecia uma ponte entre funções ±1 e contagens ópticas.
Lia viu os obstáculos. Fótons escapavam sem detecção; pares falsos apareciam em janelas de coincidência; configurações permaneciam fixas por tempo suficiente para uma influência subluminal imaginária conectar partes; a fonte podia variar. Cada imperfeição criava uma maneira de contestar a amostra ou a separação causal.
Um resultado acima de dois seria significativo apenas com incerteza estatística, calibração e protocolo definidos antes de olhar os dados. Muitas repetições reduziam flutuações, mas erros sistemáticos não desapareciam por quantidade. O desenho experimental precisava bloquear explicações alternativas, não apenas acumular cliques.
Tomás separou violação observada de teste sem brechas. Experimentos iniciais podiam apoiar a mecânica quântica sob hipóteses auxiliares razoáveis e ainda deixar brechas de detecção ou localidade. Fechar uma brecha não tornava as anteriores inúteis; refinava o domínio do que os dados excluíam.
Décadas depois, o Prêmio Nobel de Física de 2022 reconheceria Alain Aspect, John Clauser e Anton Zeilinger por experimentos com fótons emaranhados, violações de desigualdades de Bell e o desenvolvimento da ciência da informação quântica. O caminho, porém, começaria com bancadas frágeis e contagens demoradas.
O sino silenciou e duas mesas ópticas acenderam na noite. Entre elas, cabos, polarizadores e relógios fariam uma pergunta que não cabia em uma única fotografia. Lia entrou no capítulo dos detectores sabendo exatamente qual limite cada clique tentaria atravessar.