A folha de ouro flutuava no centro da quarta sala como uma janela amarela. Era tão fina que a luz atravessava suas bordas. Diante dela, uma fonte radioativa lançava partículas alfa por uma abertura estreita. Ao redor, uma tela revestida de sulfeto de zinco respondia a cada impacto com um clarão minúsculo.
Lia aproximou um microscópio da tela. Não havia contador eletrônico capaz de registrar tudo sozinho. No trabalho histórico, cintilações eram observadas e contadas em longas sessões. O olho humano fazia parte do detector, com toda a fadiga, disciplina e incerteza que isso implicava.
Partículas alfa são núcleos de hélio: carga positiva de duas unidades e massa muito maior que a do elétron. Saíam da fonte com energia suficiente para atravessar a folha metálica. Se a carga positiva do átomo estivesse espalhada por todo o seu volume, como em modelos difusos, cada passagem deveria acumular muitos empurrões pequenos.
Quase todas as partículas cruzaram a lâmina com desvio pequeno. Isso já dizia que o material não era uma parede maciça na escala atômica. Porém Geiger e Marsden, em 1909, também encontraram partículas espalhadas por ângulos muito grandes, algumas retornando para o lado da fonte.
Tomás girou a tela. Um clarão apareceu atrás deles. Lia verificou o alinhamento, a espessura da folha e possíveis espalhamentos no suporte. O evento raro continuou aparecendo. Uma partícula alfa pesada e veloz mudara seu momento de modo drástico numa única travessia por matéria quase transparente.
O Arquivo não reproduzia a radiação real; reconstruía as geometrias e os dados publicados. Em um laboratório moderno, blindagem, controle de contaminação e detectores apropriados seriam obrigatórios. A aventura podia emprestar o espanto, nunca a negligência.
Lia desenhou a folha como um véu. Na maior parte do tempo, o projétil passava. De vez em quando, encontrava algo capaz de fazê-lo voltar. O próximo modelo atômico teria de explicar simultaneamente o quase nada e o quase muro.