Sumário
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Salvando leitura…
Capítulo 4 · O átomo proibido

A folha que quase não existia

Do núcleo de Rutherford aos saltos de Bohr

Capítulo 4 · O átomo proibido
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A folha de ouro flutuava no centro da quarta sala como uma janela amarela. Era tão fina que a luz atravessava suas bordas. Diante dela, uma fonte radioativa lançava partículas alfa por uma abertura estreita. Ao redor, uma tela revestida de sulfeto de zinco respondia a cada impacto com um clarão minúsculo.

Lia aproximou um microscópio da tela. Não havia contador eletrônico capaz de registrar tudo sozinho. No trabalho histórico, cintilações eram observadas e contadas em longas sessões. O olho humano fazia parte do detector, com toda a fadiga, disciplina e incerteza que isso implicava.

Partículas alfa são núcleos de hélio: carga positiva de duas unidades e massa muito maior que a do elétron. Saíam da fonte com energia suficiente para atravessar a folha metálica. Se a carga positiva do átomo estivesse espalhada por todo o seu volume, como em modelos difusos, cada passagem deveria acumular muitos empurrões pequenos.

Quase todas as partículas cruzaram a lâmina com desvio pequeno. Isso já dizia que o material não era uma parede maciça na escala atômica. Porém Geiger e Marsden, em 1909, também encontraram partículas espalhadas por ângulos muito grandes, algumas retornando para o lado da fonte.

Tomás girou a tela. Um clarão apareceu atrás deles. Lia verificou o alinhamento, a espessura da folha e possíveis espalhamentos no suporte. O evento raro continuou aparecendo. Uma partícula alfa pesada e veloz mudara seu momento de modo drástico numa única travessia por matéria quase transparente.

O Arquivo não reproduzia a radiação real; reconstruía as geometrias e os dados publicados. Em um laboratório moderno, blindagem, controle de contaminação e detectores apropriados seriam obrigatórios. A aventura podia emprestar o espanto, nunca a negligência.

Lia desenhou a folha como um véu. Na maior parte do tempo, o projétil passava. De vez em quando, encontrava algo capaz de fazê-lo voltar. O próximo modelo atômico teria de explicar simultaneamente o quase nada e o quase muro.

Fontes desta página

  1. Hans Geiger e Ernest Marsden (1909). On a Diffuse Reflection of the α-Particles.Proceedings of the Royal Society A, 82, 495–500. Relata espalhamento de partículas alfa por grandes ângulos em lâminas metálicas finas.
  2. Ernest Rutherford (1911). The Scattering of α and β Particles by Matter and the Structure of the Atom.Philosophical Magazine, 21(125), 669–688. Deriva a distribuição angular do espalhamento por uma carga central concentrada e propõe o átomo nuclear.