Lia ajustou a fonte para 54 volts. O coletor percorreu o arco e a curva cresceu num máximo pronunciado numa direção particular do cristal. A demonstração didática mais conhecida do experimento usa esse feixe para comparar duas réguas: o comprimento de onda calculado pelo momento e o inferido pela geometria cristalina.
Um elétron não relativístico acelerado por 54 volts tem comprimento de onda de de Broglie próximo de 0,167 nanômetro. A separação e a orientação dos planos relevantes do níquel produzem, numa leitura simplificada pela lei de Bragg, um valor da mesma ordem e em estreita concordância. O pico não aparecia onde uma colisão difusa qualquer mandaria; aparecia onde fases de uma onda com aquela escala poderiam somar-se.
Tomás advertiu que a famosa conta de uma linha é uma reconstrução pedagógica, não o relatório completo. A geometria de reflexão na superfície, o índice do plano, a convenção do ângulo e o potencial médio dentro do cristal exigem cuidado. Os próprios dados de 1927 incluíam muitos feixes, máximos ausentes, efeitos de gás e diferenças em relação à posição ingênua de feixes de raios X equivalentes.
O argumento robusto não dependia de fazer um único ângulo encaixar por arredondamento. Davisson e Germer observaram dezenas de conjuntos de feixes abaixo de 370 volts. No relato retrospectivo, Davisson destacou que dezenove podiam testar a relação entre comprimento de onda e momento e concordavam com λ=h/p dentro da precisão das medidas.
Lia variou a voltagem. O máximo brilhou, enfraqueceu e reapareceu em outra direção. Esse deslocamento era mais eloquente que o número 54 isolado. Se a intensidade fosse causada apenas por uma imperfeição fixa do aparelho, não deveria seguir a mudança de comprimento de onda prevista quando o momento do elétron mudava.
Também não bastava chamar qualquer saliência de pico. Era preciso medir fundo, largura, reprodutibilidade, azimute e condição da superfície. Alguns feixes surgiam com gás adsorvido e desapareciam após desgaseificação; outros se fortaleciam no cristal limpo. A superfície participava da difração e precisava ser tratada como parte da amostra, não como embalagem neutra.
A marca de 54 volts permaneceu no visor, agora cercada por uma família de curvas. Lia entendeu por que ícones históricos podem enganar: comprimem um programa experimental num instante bonito. O instante era real e útil, mas a evidência estava na rede de relações que sobrevivia ao movimento de cada controle.