Sumário
76 / 216
Salvando leitura…
Medir as três configurações isolava a coerência

O termo que sobrou

O experimento que recusa uma única história clássica

Lia escreveu P₁₂−P₁−P₂. Se a teoria clássica de alternativas exclusivas bastasse, o resultado seria zero em toda a tela. O Arquivo desenhou uma oscilação positiva e negativa. Era o termo cruzado, 2Re(ψ₁*ψ₂), variando com a fase relativa.

Nos máximos, o termo era positivo e reforçava as probabilidades isoladas. Nos mínimos, negativo e cancelava parte ou toda a soma. A probabilidade total nunca se tornava negativa porque o conjunto completo era um módulo quadrado, embora uma contribuição algébrica pudesse ter sinal negativo.

Tomás inseriu uma lâmina de potencial diante de uma das passagens. Ela alterou a fase sem bloquear o caminho. As franjas deslizaram lateralmente. Isso mostrava que fase não era um ornamento da função: uma mudança que quase não afetava as intensidades isoladas mudava onde a soma se reforçava.

Se a fase flutuasse aleatoriamente entre tentativas, máximos de uma realização cairiam sobre mínimos de outra. A média lavaria as franjas e tenderia a P₁+P₂. Perder coerência de fase pode ocorrer por instabilidade da fonte, vibração ou interação com o ambiente.

Lia distinguiu ausência de interferência de prova de trajetórias clássicas. Uma média sem franjas pode resultar de uma mistura incoerente de fases, resolução insuficiente ou marcação de caminho. É preciso caracterizar o aparato antes de concluir qual mecanismo removeu o termo cruzado.

A visibilidade V=(Imax−Imin)/(Imax+Imin) quantificava o contraste. V próximo de um indicava mínimos profundos sob intensidades equilibradas; V menor podia refletir amplitudes desiguais e perda de coerência. Um desenho bonito de franjas não substituía essa medida.

Tomás apagou P₁ e P₂ e deixou apenas o resíduo. Lia viu a parte da experiência que nenhuma fenda produzia sozinha. O termo cruzado não pertencia a um caminho; pertencia à relação entre caminhos. A física quântica começava justamente onde a contabilidade por caixas separadas parava de funcionar.

Fontes desta página

  1. Roger Bach, Damian Pope, Sy-Hwang Liou e Herman Batelaan (2013). Controlled Double-Slit Electron Diffraction.New Journal of Physics, 15, 033018. Realiza dupla fenda eletrônica controlada, alternando cada abertura e registrando a construção do padrão por eventos individuais.
  2. Berthold-Georg Englert (1996). Fringe Visibility and Which-Way Information: An Inequality.Physical Review Letters, 77, 2154–2157. Deriva uma relação quantitativa entre distinguibilidade dos caminhos e visibilidade das franjas num interferômetro de dois caminhos.
  3. Max Born (1926). Quantenmechanik der Stoßvorgänge.Zeitschrift für Physik, 38, 803–827. Desenvolvimento extenso da teoria quântica de colisões e da interpretação estatística das amplitudes de transição.