No centro da sala havia um prisma. A luz da cavidade entrava por uma fenda e se abria numa faixa de cores sobre a mesa. Um detector percorria a faixa e registrava quanta energia chegava em cada comprimento de onda. O resultado não era uma cor única, mas uma curva: pouca energia num extremo, uma subida até o pico e uma descida no outro.
Tomás aqueceu a cavidade. A montanha no papel ficou mais alta e seu cume caminhou para comprimentos de onda menores. Um objeto morno emite principalmente no infravermelho. Mais quente, pode começar a brilhar em vermelho. Mais quente ainda, acrescenta outras regiões visíveis; não abandona simplesmente o vermelho, mas aumenta a emissão em uma faixa ampla enquanto o pico se desloca.
Em 1896, Wilhelm Wien publicou uma lei de distribuição que capturava muito bem o lado de alta frequência do espectro. Também estava ligada ao deslocamento do pico com a temperatura: multiplicar a temperatura absoluta pelo comprimento de onda do máximo produz uma constante. É por isso que a cor aparente de metais aquecidos e estrelas fornece pistas sobre temperatura — desde que se trate com cuidado absorção, atmosfera e o fato de objetos reais não serem corpos negros perfeitos.
Lia desenhou três curvas no caderno. Nenhuma terminava numa parede. A radiação visível era apenas um corredor estreito dentro de um edifício muito maior. À esquerda e à direita havia energia que seus olhos não detectavam, embora instrumentos pudessem medi-la.
— A teoria precisa explicar a curva inteira? — perguntou.
— Inteira — respondeu Tomás. — Ajustar só o trecho que vemos seria como afirmar que conhece uma cidade porque reconhece sua praça.
A dificuldade escondia-se nos extremos. A lei de Wien falhava nas frequências baixas medidas com crescente precisão. A física clássica oferecia outra expressão que funcionava justamente ali. Cada teoria conhecia metade da cidade. Nenhuma possuía o mapa completo.