O cristal apareceu como uma cidade ordenada. Fileiras de átomos se repetiam em profundidade, formando planos separados por distâncias regulares. Lia sabia que o desenho exagerava esferas e vazios; um cristal real era um arranjo quântico de núcleos e elétrons. Para calcular difração, porém, a periodicidade espacial era o aspecto que importava.
Quando uma onda encontra muitos centros espalhadores regularmente espaçados, contribuições vindas de direções específicas chegam em fase e se reforçam. Em outras direções, chegam desencontradas e se cancelam parcialmente. A lei de Bragg resume uma geometria comum: 2d senθ=nλ, onde d é a separação entre planos e θ depende da convenção de incidência adotada.
Substituir λ por h/p transformava a hipótese em plano de experimento. Conhecendo a energia dos elétrons, calculava-se seu momento e seu comprimento de onda. Conhecendo a estrutura do cristal, previam-se ângulos nos quais a intensidade espalhada deveria aumentar. Mudar a voltagem de aceleração mudaria p, encurtaria λ e deslocaria os máximos.
Uma bola clássica arremessada contra uma grade também pode ricochetear em muitas direções, mas não produz por si só máximos e mínimos coerentes governados pela diferença de caminho em unidades de λ. O padrão angular era o ponto. Assim como no espalhamento de Rutherford, uma curva medida valeria mais que a narrativa de um evento isolado.
Lia perguntou se seria possível observar uma única onda atravessando todo o cristal. Tomás apontou para o detector. O que se registraria seriam elétrons individuais em lugares definidos. O padrão de difração surgiria ao acumular muitos eventos preparados do mesmo modo. Mesmo com intensidade baixa, a distribuição final poderia preservar máximos compatíveis com interferência.
A preparação exigia cuidado: energia relativamente bem definida, vácuo para evitar colisões indesejadas, cristal com superfície e orientação conhecidas, detector móvel e controle de potenciais. Uma estrutura contaminada ou alterada poderia mudar o espalhamento. A evidência não seria uma fotografia fácil de uma onda, mas a concordância entre geometria, energia e distribuição angular.
No caderno, Lia escreveu a cadeia inteira: voltagem determina energia; energia determina momento; momento determina λ; λ e o cristal determinam ângulos; o detector mede intensidade. Se um elo falhasse de modo sistemático, a hipótese sofreria. A marca ainda não aparecera, mas já tinha endereço.