A última sala não mostrou a trajetória do elétron. Mostrou apenas uma fonte, um cristal e um detector curvo. Lia tentou traçar uma linha entre os três, mas o Arquivo devolveu várias alternativas de espalhamento com fases diferentes. Nenhuma delas era apresentada como o caminho secreto que a partícula necessariamente percorreu.
Se o elétron fosse apenas uma esfera clássica com posição e direção desconhecidas, o padrão deveria ser explicável por uma distribuição comum de ricochetes. Se fosse apenas uma onda material contínua, seria difícil entender por que a carga chegava ao detector em pulsos localizados. A teoria emergente exigia manter os eventos inteiros e somar amplitudes antes de calcular suas frequências.
Essa combinação não significa que metade do elétron chega a um ponto e metade a outro. Um detector adequado registra uma carga eletrônica inteira por evento. O caráter ondulatório aparece na probabilidade espacial dos eventos, na dependência com a fase e na formação de máximos e mínimos após muitas repetições.
Lia percebeu que ‘qual caminho?’ podia ser uma pergunta experimental, mas não gratuita. Para obter informação de trajetória seria necessário acoplar o elétron a algum marcador. Esse acoplamento alteraria as alternativas disponíveis e a coerência entre elas. Os capítulos seguintes tornariam essa tensão explícita; por enquanto, bastava não contrabandear uma rota clássica para dentro de um cálculo que não a usava.
A dualidade também não era uma licença para escolher a metáfora favorita. O arranjo experimental determina quais propriedades podem aparecer nos dados, e o formalismo precisa prever todas. Difração não apaga massa e carga. Impactos não apagam fase e interferência. ‘O elétron é uma onda’ e ‘o elétron é uma bolinha’ são ambas frases curtas demais quando tomadas literalmente.
O detector começou a girar ao redor de um bloco de níquel. Por alguns ângulos, registrou poucos eventos; por outros, a contagem subiu. Tomás não revelou ainda a curva nem o acidente experimental que ajudaria a preparar a superfície cristalina. Apenas anotou dois nomes na porta seguinte: Clinton Davisson e Lester Germer.
Lia fechou o capítulo com uma resposta provisória. De Broglie não encontrara um caminho mais estranho para o elétron; retirara do caminho o privilégio de ser a única descrição possível. A hipótese dizia onde procurar sua assinatura. Agora o níquel teria de decidir se a matéria realmente sabia ondular.