O relógio e o detector ficaram lado a lado. Dado o estado inicial e o Hamiltoniano, a equação de Schrödinger determinava a amplitude futura. Dada essa amplitude e uma pergunta de medição, a regra de Born determinava a distribuição dos resultados. Nenhuma das duas escolhia o próximo clique individual.
Lia repetiu a preparação com cuidado obsessivo. Mesmo protocolo, mesma duração, mesmo aparelho. Os resultados variaram e as frequências convergiram para os pesos calculados. A aleatoriedade quântica não era ausência de regularidade; era uma regularidade que residia na distribuição.
Seria possível imaginar variáveis desconhecidas que fixassem cada evento por baixo da teoria? Em 1926, essa pergunta permanecia aberta e Born a reconheceu como questão filosófica ligada aos limites das evidências disponíveis. Décadas depois, Bell mostraria que teorias locais com valores preexistentes obedecem restrições testáveis.
Não convinha antecipar a conclusão. A regra de Born, sozinha, não prova que toda forma concebível de determinismo é impossível. Ela fornece as probabilidades que qualquer interpretação empiricamente adequada da mecânica quântica precisa reproduzir. Interpretações discordam sobre o que existe entre preparação e resultado.
Tomás também separou imprevisibilidade de descontrole experimental. Ruído clássico, deriva térmica e erro de calibração adicionam incerteza sobre a preparação. Probabilidade quântica permanece mesmo no modelo ideal perfeitamente especificado. Experimentos reais contêm ambas e precisam estimá-las.
A atualização do estado após uma medição introduzia outra questão. O colapso usado em cálculos de laboratório não se parecia com a evolução unitária contínua do relógio. Ambiente, aparelhos e registros exigiriam um capítulo próprio sobre medida e decoerência. Born fornecia os pesos, não dissolvia todo o problema da medição.
O detector clicou à direita. Lia poderia ter previsto a chance, não o evento. Depois do clique, atualizou a descrição para incorporar o registro. A teoria fora exata onde prometera ser: na estrutura das possibilidades e em suas frequências. Exigir dela uma trajetória secreta seria mudar o contrato sem aviso.